
Em tempos de parcerias, contratos milionários e modernidade, o
Londrina Esporte Clube por sorte não é o maior ou mais sofisticado nem
de Londrina. Por lá, grande é o Corinthians. Ao alviceleste apenas
restaram uns 2000 chucros, bêbados e desgraçados. Talvez por isso meu
pai nunca gostou de minha constante freqüência nos jogos do Tubarão.
Por ali, apenas os mais desqualificados foram os que ficaram para
apoiar o clube da cidade.
O restante dos munícipes carrega
rancor, ódio e profundo medo do Tubarão. O Londrina é o clube dos
vagabundos. E essa é a fama de torcida, diretoria e jogadores. Esqueçam
as hospitalidades e gentilezas cantadas no hino de João Arnaldo. Isso é
coisa da cidade, mas no LEC é apenas fachada. E por isso o Londrina não
é o maior clube da cidade. É um clube de elite. Apenas para os
escolhidos.
Com certeza a idéia do atual e primeiro presidente
engomado foi quebrar o estereótipo, os paradigmas. Fazer do Londrina um
gigante moderno clube paranaense. Na teoria, é um ponto simples da
evolução. Na prática não dá certo. Não deu, Peter não consegue.
Dificilmente alguém vai conseguir. O pensamento, a atividade e o
caráter primitivo faz parte da retórica do Londrina.
Vai ser
assim para sempre. Foi assim que o Londrina chegou ao auge de sua
história em 62, 77, 80, 81 e 92. Mas foi assim que chegou ao lamentável
em 98, 2000 e 2004. E dessa forma talvez um dia o LEC volte ao lugar
máximo do futebol brasileiro e ainda seja campeão. Eu acredito nisso,
pode ter certeza. Nada impede que no ano seguinte o tuba abandone tudo
e possa apenas jogar a Copa Paraná, decorrente de uma dívida qualquer
acertada entre ex-jogador e ex-dirigente.
Esse é o Londrina
querido. Londrina odiado. Imprevisível. É o clube das estrelas
diferenciadas. Daquelas que vão além do Bem Amado. São estrelas como o
Zambeta, ex-presidente, mestre, torcedor exemplar, que comprava
jogadores com cheques voadores diferenciados. Mentia ser fazendeiro,
usava os trajes de galope e assinava cheques com uma caneta paraguaia
que a tinta sumia 2 horas depois. Zambeta, que já se foi, foi o homem
forte do Tubarão. Homem de pulso que peitou a diretoria toda do Vasco
em São Januário, na batalha de 77. Peitaria qualquer um.
Outro
exemplar cidadão da casa é palmeirense. O maior dos presidentes,
Franchello, amava tanto ao clube que no primeiro sinal de perigo não
pensava para ligar na entidade máxima do futebol brasileiro ou justiça
desportiva e ameaçar. Ameaçando os diretores afirmando ser presidente
do Brasil procurador da república, até mesmo agente do exército, o
maior dos londrinenses dava o seu recado. E quando a ameaça não dava
certo, sempre havia um contato telefônico que colocasse um fim da
energia elétrica de nossa confederação ou tribunal maior.
LEC é o
clube do Caldarelli, que fazia pagamento em bois. Dava tiros para cima
quando achava conveniente. LEC é o clube de um repórter cabra macho,
que as vezes desmunheca, e que em toda a Copa do Mundo aparece em
coletivas de imprensa com agasalho e camisa do Londrina ao invés de sua
equipe de reportagem. Sem falar nos extras das viagens negociando a
exportação de prostitutas brasileiras na Europa e EUA.
São muitas
nossas estrelas. O herói de 92 sempre foi da boemia. O presidente da
gestão do campeonato é fundador do maior rival, o Grêmio de Maringá. O
da campanha Quem Ama Não Difama organizou o jogo do seu querido Timão
em Londrina. Mas sempre vai aos jogos do Londrina para ficar batendo no
peito e dizendo: Eu sou humilde e bato no peito. Amo o Tubarão.
É
tanto teatro, tanta cena, que até mesmo a falta de educação de sua
torcida contracenando o jogo atirando sacos plásticos lotados de urina
nos visitantes vira folclore. Cada jogo do Londrina é um eterno culto
aos vagabundos. Uma classe que não se mistura. Pois ninguém quer se
misturar com a mesma. No dia que os vagabundos se unirem em torno de
uma única causa chamada Londrina, serão imbatíveis. O problema é que
então podemos virar fenômeno de massa, aquilo que o atual presidente
sempre tentou fazer. Porém assim, os 2000 vagabundos vão perder a razão
de existir. E o clube acaba.